Olha, eu nunca vi alguém ser tão dura com os sentimentos como
eu sou. Nunca vi alguém se doer tanto e, ainda assim, insistir numa frieza não
existente. Nunca vi alguém chorar de raiva, como eu choro. E nem escrever como
se as teclas estivessem sendo arrancadas uma a uma, tamanha a força aplicada.
Olha, eu nunca vi alguém se fechar tanto em si, como eu me fecho, com medo e um
pouco de vergonha, talvez, por tanta sensibilidade exaltada. Mas é isso, sim, é
isso. Minhas dores são tão grandes quanto as minhas alegrias. E as minhas
lágrimas são tão salgadas quanto meus sorrisos são doces. Eu desabo de ódio e
grito de amor. Os meus dias frios deixam os polos com inveja. Eu salto dos
andares existentes em mim, cada vez que sinto meu edifício desabar. Olha, eu
nunca vi alguém se jogar como eu me jogo. Depois, eu mesmo barro minha queda
livre porque minha coragem vai até 20 centímetros do chão. Eu nunca passo
disso, nunca. Eu interrogo as minhas dúvidas e brigo comigo por não saber
responder. Peço desculpas aos outros quando nem mesmo o erro é meu. Eu me rendo
sempre, porque a dureza não me acompanha quando levanto da cama e visto a roupa
de viver. Nunca vi alguém rir e chorar ao mesmo tempo, como faço na hora de
dormir. Nunca vi tanto rancor e amor misturados numa só solução que não
soluciona nada, não resolve problema algum. Olha, eu nunca vi tanto medo junto
com tanta coragem enroscada. Nunca vi tanta fé rodeada de “será?” como eu vejo
em mim. Mas é isso, mais ou menos isso, que sou. Um sorriso meio salgado, uma
queda meio equilibrada, uma dureza meio mole, uma coragem meio covarde, um
suspiro com falta de ar, um calor com pancadas de chuva no final da tarde. Um
acreditar meio duvidoso, uma vida meio morta, um céu azul que se enche de
nuvens em um instante. E apesar de, ainda que, além de, afora isso, contudo,
embora… não vou embora. Eu poderia me ver meio triste, meio instável, meio mal,
meio vazio. Mas eu prefiro me ver meio cheio. É isso, mais ou menos isso: nunca
vi um copo meio vazio tão cheio quanto o meu.

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