Eu também tenho medo. Pode parecer que não, mas é que aprendi
ser assim. Criei uma personalidade capaz de enfrentar o mundo, que racionaliza
com facilidade perante os absurdos da vida. Eu aprendi a enfrentar a dor. Mas
te confesso, baby, foi a minha única saída. Caso contrário, tenho convicção,
não estaria mais aqui. Me desculpa por ser tão frio, me desculpa por ser tão
duro e ter a mania de dizer a verdade. Queria te pegar nos meus braços e falar
que tudo não passa de um pesadelo inoportuno, chorar uma tarde inteira,
recolher a tua dor trancafiando seu canto no horizonte de nossos olhos
risonhos. Pode ser que eu tenha me organizado tanto, sentimentalmente falando,
que minhas reações pareçam sair de uma caixa de seleções, mas eu lhe digo,
baby, tudo não passa de tentativas de me manter em pé, é tão somente um esforço
para avançar um único passo e seguir em frente. Eu também desmorono, meu
interior é repleto de convicções traiçoeiras e inoperantes. Meu intelecto
falha, me sinto em um labirinto emocional principalmente quando me deparo
comigo mesmo diante do espelho, maldito espelho, que sempre me entrega a alma
de mãos atadas. Eu queria poder lhe entregar o alívio, ser a tua rede a beira
mar ao entardecer, te aconchegar e te fazer dormir. Eu sou teimoso, calculista,
eu sempre digo às pessoas que não presto, sou muito triste e irremediavelmente
cruel com quem mais me ama, porque quando se trata de evitar a dor sou egoísta,
você sabe, meu livro atual de cabeceira é de Fernando Pessoa. De fato você
mudou a minha vida e com delicadeza catou cada pedaço do meu coração. Eles se
escondiam nas pontas dos dedos, você lembra? Você me provou que haveria uma
chance de sermos felizes. O problema é que sou feito de velhas páginas, sou um
livro velho pautado por velhas histórias, velhos sentimentos lotados de
discórdia. Sou poeta do mar, minhas raízes acumulam outras vidas que marcaram a
minha a ferro e fogo, são marcas que jamais poderão ser apagadas e que apesar
de presas ao fundo do oceano um dia se desprendem e vem boiar na minha
superfície, minha insanidade, minha doce e eterna amargura, minha completa
inaptidão para amar. Eu te confesso mais uma vez, tenho amor à vida, já conheci
a morte tão perto que aprendi a não me render tão facilmente frente a qualquer
obstáculo. Meu problema são as pessoas. Eu sinto muito por tudo, por você, por
mim, por esse meu jeito de ser. Sou imaculado, um ser sem extremidades, meus
pensamentos são pássaros feridos, minha liberdade um alçapão pra tudo que não
me é solto e revolto. Me despeço de ti, baby, sabendo que vou te deixar e que
jamais me deixarás, vou em direção ao meu destino, minha saudosa solidão, minha
paz, deixo contigo o melhor de mim, meu sorriso, minha esperança, minha fé,
minha doce ilusão, mas esta na minha hora, tenho que partir. Adeus meu encanto.

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