“Sofrer. Era o que eu queria. Fechar portas e janelas, deixar aquela luz de cinema baixinha no canto da sala e me focar em mim, no meu escuro e silêncio. Sofrer por você. Era o que eu queria naquele dia, e dane-se, dane-se que o telefone tocasse, que pudesse ser você, que o vizinho me achasse louca ou que as minhas amigas falassem que era depressão. Todos eles assistem televisão demais, e eu, querido, nunca fui a Camila Pitanga de nenhuma novela, nunca fui a mocinha que alguém corre atrás em qualquer aeroporto ou até num boteco de esquina. Eu nunca fui a mocinha que você salvaria. Eu quero sofrer vendo as suas fotos, sentindo o seu cheiro na camisa que ficou porque você dizia que também ficaria. Eu quero sofrer ouvindo a nossa música no último volume porque eu posso não ser a mocinha, mas ainda mereço uma trilha sonora. Eu quero sofrer olhando no sofá a mancha daquele molho que só você sabe fazer e nunca saiu dali e eu também não me importo, prefiro que fique assim. Eu quero sofrer olhando bilhetes bobos que você ia deixando pelos meus cadernos e papéis sempre abertos e espalhados pela casa, nem aí para importância do documento. Eu quero sofrer vendo o vídeo da nossa primeira viagem e arrancando lembranças passageiras da última. Eu quero sofrer olhando vestidos e mais vestidos de noiva na revista que você mesmo me deu e não ficou para me ajudar a escolher. Eu quero sofrer a perda, o fim, a porcaria do romance que alguém um santo dia disse que a gente precisa para viver. Eu precisava. Hoje, eu vivo sem romance. E vivo, quem explica? Hoje, eu sou a a falta e você a culpa. Ou vice-versa. Ou nada disso, mas é que fica bonito escrevendo assim e já que nós não somos mais bonitos nem em fotografias, que seja bonito pelo menos o meu desabafo. Hoje eu quero ser o chão e você a chuva. Eu a nuvem e o você o trovão. Eu o livro e você a página rasgada. Eu o som e você o disco quebrado. Eu quero sofrer para começar tudo outra vez amanhã. E se não for amanhã, que seja depois de amanhã, semana que vem, sei lá. Que seja na cama de outro ou sozinha na minha. Eu quero sofrer para te exterminar de vez. Será que nem me despedir em paz eu posso? Será que a gente não tem mais o direito nem de sofrer? Eu queria ser literatura e você escritor. Só assim a dor seria do dono. Em paz, claro.”
| — | Camila Costa |
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